quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Consulta Inicial

Anamnese

A anamnese deve sempre ser realizada na consulta odontológica inicial, pois a partir dela o cirurgião-dentista consegue colher informações para formar uma ou mais hipóteses diagnósticas. Ao mesmo tempo que permite ao cirurgião-dentista começar a delinear o perfil do paciente que será tratado sob sua responsabilidade profissional.

Categoria de Risco

A American Society of Anesthesiologists (Associação Americana de Anestesiologistas) adota um sistema de classificação de pacientes com base no estado físico (physical status), por isso a sigla ASA-PS. Por esse sistema, os pacientes são distribuídos em 6 categorias, denominadas de P1 a P6. No Brasil, ainda prevalece apenas o uso do acrônimo ASA (de I a VI). Essa classificação foi designada para pacientes adultos. Quando o paciente relata uma condição ou doença de forma isolada, a classificação ASA pode ser perfeitamente adaptada à clínica odontológica. Porém, quando o paciente possui um histórico de múltiplas doenças, o dentista deverá avaliar o significado e o peso de cada uma delas para por fim enquadrá-lo na categoria ASA mais apropriada.
Quando não for possível determinar a significância clínica de uma ou mais anormalidades ou qualquer outra dúvida semelhante, é recomendada a troca de informações com o médico que trata do paciente. Em todos os casos, entretanto, a decisão final de se iniciar o tratamento odontológico ou postergá-lo é de responsabilidade exclusiva do cirurgião-dentista, pois é ele quem irá realizar o procedimento.

ASA I
Paciente saudável que em sua história médica não apresenta nenhuma anormalidade. Possui pouca ou nenhuma ansiedade, com risco mínimo de complicações. São excluídos pacientes muito jovens ou muito idosos.

ASA II
Paciente portador de doença sistêmica moderada ou de menor tolerância que o ASA I, por apresentar
maior grau de ansiedade ou medo ao tratamento odontológico. Pode exigir certas modificações no plano de tratamento, de acordo com cada caso. Apesar da necessidade de certas precauções, o paciente ASA II também apresenta risco mínimo de complicações durante o atendimento.
Condições para ser incluído nesta categoria:
• Paciente extremamente ansioso, com história de episódios de mal-estar ou desmaio na clínica odontológica.
• Paciente com mais de 65 anos.
• Obesidade moderada.
• Primeiros dois trimestres da gestação.
• Hipertensão arterial controlada com medicação.
• Diabético tipo II, controlado com dieta e/ou medicamentos.
• Portador de distúrbios convulsivos, controlados com medicação.
• Asmático, que ocasionalmente usa broncodilatador em aerossol.
• Tabagista, sem doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
• Angina estável, assintomática, exceto em extremas condições de estresse.
• Paciente com história de infarto do miocárdio, ocorrido há mais de 6 meses, sem apresentar sintomas.

ASA III
Paciente portador de doença sistêmica severa, que limita suas atividades. Pode exigir algumas modificações no plano de tratamento, sendo imprescindível a troca de informações com o médico. O tratamento odontológico eletivo não está contraindicado, embora este paciente represente um maior risco durante o atendimento.
Exemplos de ASA III:
• Obesidade mórbida.
• Último trimestre da gestação.
• Diabético tipo I (que faz uso de insulina), com a doença controlada.
• Hipertensão arterial na faixa de 160-194 a 95-99 mmHg.
• História de episódios frequentes de angina do peito, apresentando sintomas após exercícios leves.
• Insuficiência cardíaca congestiva, com inchaço dos tornozelos.
• Doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema ou bronquite crônica).
• Episódios frequentes de convulsão ou crise asmática.
• Paciente sob quimioterapia.
• Hemofilia.
• História de infarto do miocárdio, ocorrido há mais de 6 meses, mas ainda com sintomas (p. ex., dor no peito ou falta de ar).

ASA IV
Paciente acometido de doença sistêmica severa sob constante risco de morte. Se possível os procedimentos dentais eletivos devem ser adiados até que a condição médica do paciente permita enquadrá-lo na categoria ASA III. As urgências odontológicas, como dor e infecção, devem ser tratadas da maneira mais conservadora que a situação permita. Quando houver indicação inequívoca de pulpectomia ou exodontia, a intervenção deve ser efetuada em ambiente hospitalar, que dispõe de unidade de emergência e supervisão médica adequada.
São classificados nesta categoria:
• Pacientes com dor no peito ou falta de ar, enquanto sentados, sem atividade.
• Incapazes de andar ou subir escadas.
• Pacientes que acordam durante a noite com dor no peito ou falta de ar.
• Pacientes com angina que estão piorando, mesmo com a medicação.
• História de infarto do miocárdio ou de acidente vascular encefálico, no período dos últimos 6 meses, com pressão arterial acima de 200/100 mmHg.
• Pacientes que necessitam da administração suplementar de oxigênio, de forma contínua.

ASA V
Paciente em fase terminal, quase sempre hospitalizado, cuja expectativa de vida não é maior do que 24 h, com ou sem cirurgia planejada. Nesta classe de pacientes, os procedimentos odontológicos eletivos estão contraindicados; as urgências odontológicas podem receber tratamento paliativo, para alívio da dor.
Pertencem à categoria ASA V:
• Pacientes com doença renal, hepática ou infecciosa em estágio final.
• Pacientes com câncer terminal.

ASA VI
Paciente com morte cerebral declarada, cujos órgãos serão removidos com propósito de doação. Não há indicação para tratamento odontológico de qualquer espécie.

Antes de iniciar o tratamento de pacientes classificados como ASA II, III ou IV, é recomendável (ou mesmo imprescindível) referenciá-los ao médico que os atende para confirmar os dados obtidos na anamnese e no exame físico, além de obter mais dados que ajudem a definir o perfil do paciente. O cirurgião-dentista deve informar ao médico sobre o tratamento que se propõe a realizar e os cuidados que pretende adotar.

Anamnese Dirigida

Na consulta inicial, quando o paciente relata alguma doença de ordem sistêmica, a anamnese deve ser dirigida ou direcionada ao problema, através de algumas perguntas como as que seguem:
1. Como está o controle atual da sua doença?
2. Você faz uso diário de algum medicamento?
3. Você passou por alguma complicação recente?
4. Você tomou sua medicação hoje?

Exame Físico

Aliado à história dos sintomas obtida na anamnese, o exame físico completa os elementos necessários para formular as hipóteses de diagnóstico. As principais manobras são a inspeção, a palpação, a percussão, a auscultação e a olfação. A inspeção física deve ser geral e local.
Na inspeção geral, que tem início quando o paciente entra no consultório, o primeiro cuidado é observar a fisionomia do paciente, em cuja composição se incluem fatores como a cor da pele, o tamanho e o desenvolvimento dos ossos da face, a tonicidade e a mobilidade da musculatura, a expressão dos olhos, etc. O aspecto geral e o biotipo (relação peso vs. altura) do paciente complementam esta fase do exame.
Na inspeção local, dirigida especialmente à cabeça e ao pescoço, devem ser observados todos os desvios de normalidade que possam constituir dados clínicos relevantes. As estruturas anatômicas relacionadas direta ou indiretamente com a boca, os ossos maxilares, a articulação temporomandibular, as glândulas salivares e as cadeias ganglionares deverão ser examinadas por palpação.
A inspeção intrabucal inicia-se pela face interna do lábio e deve terminar com a visualização direta da orofaringe, identificando-se os caracteres das estruturas anatômicas como lábios, gengiva, fundo de sulco, rebordo alveolar, mucosa jugal, língua, assoalho bucal, palato e porção visível da faringe. Segue-se a semiologia dos dentes e a semiologia periodontal, identificando-se anomalias de desenvolvimento e a presença de cárie e suas decorrências, além do exame físico das estruturas periodontais, finalizando com uma análise inicial da oclusão.

Avaliação dos sinais vitais e interpretação clínica
A avaliação dos sinais vitais faz parte do exame físico, sendo imprescindível durante a consulta odontológica inicial. Os dados relativos ao pulso carotídeo ou radial, a frequência respiratória, a pressão arterial sanguínea e a temperatura devem constar no prontuário clínico.

Pulso arterial
Pode ser avaliado por meio de qualquer artéria acessível. Em crianças e adultos, as artérias carotídeas e radiais (localizadas na posição ventral e distal do antebraço) são palpadas sem grandes dificuldades. Em bebês (até 1 ano de idade), é recomendada a avaliação da artéria braquial, que se situa na linha mediana da fossa antecubital. Sempre que um indivíduo tem seu quadro de saúde agravado de forma súbita, recomenda-se a verificação do pulso pela artéria carotídea, que é facilmente encontrada, pois o músculo cardíaco, enquanto é possível, continua a liberar sangue oxigenado para o cérebro por meio dessa artéria. Na avaliação do pulso arterial, três indicadores devem ser considerados: qualidade, ritmo e frequência (número de pulsações por minuto), por meio da seguinte técnica:
1. Coloque a extremidade (polpa) de dois dedos (médio e indicador) sobre o local, pressionando o suficiente para sentir a pulsação, mas não tão firmemente a ponto de obstruir a artéria e não sentir os batimentos. O polegar não deve ser empregado para avaliar o pulso, pois contém uma artéria de calibre moderado que também pulsa.
2. Avalie o volume do pulso como forte (cheio) ou fraco (filiforme).
3. Avalie o ritmo cardíaco: regular ou irregular.
4. Avalie, então, a frequência cardíaca (nº de batimentos) por 1 min ou, no mínimo, 30 s, neste caso multiplicando o resultado por 2.
O volume do pulso, quando se mostra forte (cheio), pode estar indicando pressão arterial anormalmente alta, ao contrário do pulso fraco (filiforme), que pode ser indicativo de hipotensão arterial ou, por ocasião das emergências, um sinal de choque. Um pulso normal deve manter o ritmo regular.
A frequência cardíaca (FC) normal de um adulto, em repouso, situa-se na faixa de 60-100 batimentos por minuto (bpm), sendo geralmente mais baixa em atletas (40-60 bpm) e mais elevada em indivíduos ansiosos ou apreensivos. Sugere-se que toda FC < 60 bpm ou > 100 bpm, com o paciente em repouso, deva ser mais bem investigada. Caso não haja associação com alguma causa lógica (exercício físico, fadiga, tabagismo, uso de cafeína, etc.), o encaminhamento para consulta médica deve ser considerado.

Frequência Respiratória
A determinação da frequência respiratória (FR) pode ser errônea se o avaliador disser ao paciente que irá observar sua respiração, pois isso poderá induzi-lo a respirar de forma mais lenta ou mais rápida.
A frequência respiratória anormalmente baixa é denominada bradipneia. Ao contrário, quando é anormalmente alta, denomina-se taquipneia. O termo dispneia é empregado quando se tem dificuldade respiratória, culminando com apneia para a parada respiratória. Nas gestantes, em razão do aumento do volume uterino e das mudanças metabólicas, é comum observar-se alterações na fisiologia da respiração, como dispneia (“falta de ar”) e taquipneia (aumento da FR).
A taquipneia também pode ser observada na síndrome de hiperventilação, como consequência do quadro de ansiedade aguda, acompanhada de aumento da profundidade da respiração, formigamento das extremidades (mãos, pés e lábios) e, eventualmente, dor no peito. A respiração rápida e profunda (respiração de Kussmaul), associada a hálito cetônico, náuseas, vômito e dor abdominal, também pode ser um sinal importante do quadro de cetoacidose, em pacientes diabéticos.
Valores normais:
Em bebês: 30-40 FR/min;
1-2 anos 25-30 FR/min;
2-8 anos 20-25 FR/min;
8-12 anos 18-20 FR/min;
Adultos 14-18FR/min.

Pressão arterial sanguínea
Alguns cuidados devem ser tomados antes de se avaliar a pressão arterial:
1. Certifique-se de que o paciente não está com a bexiga cheia, não praticou exercícios físicos, não ingeriu café ou chá, bebidas alcoólicas, alimentos em excesso ou fumou até 30 min antes da avaliação.
2. Mantenha-o em repouso por 5-10 min, na posição sentada, antes de iniciar a aferição.
3. Explique o procedimento que irá ser feito, para evitar a hipertensão do “jaleco branco”, e oriente-o a não falar durante o procedimento.
4. Anote no prontuário clínico os valores das pressões sistólica e diastólica, o horário e o braço em que foi feita a mensuração.
5. Espere 1-2 min para a realização de novas medidas.
Classificação da pressão arterial em maiores de 18 anos (mmHg)
A pressão arterial sanguínea normal em maiores de 18 anos é sistólica < 120 e diastólica < 80.

FONTE:
Terapêutica medicamentosa em odontologia [recurso eletrônico] / Organizador, Eduardo Dias de Andrade. – Dados eletrônicos. – 3. ed. – São Paulo : Artes Médicas, 2014.

domingo, 9 de julho de 2017

Odontogênese

Todos os dentes seguem um processo similar de desenvolvimento

Lâmina Dentária e Lâmina Vestibular

Células da crista neural constituem o ectomesênquima

No embrião, o estomodeo é revestido pelo ectoderma. Por volta do 22º dia, o ectoderma entra em contato com o endoderma que reveste o tubo digestivo anterior, formando assim a membrana bucofaríngea que se desintegra no 27º dia. Assim, estabelece-se a comunicação entre o estomodeo e a faringe e o restante do tubo digestivo. Nessa fase o estomodeo é revestido por um epitélio com 2 a 3 camadas de células, que recobre um tecido que está sendo invadido por uma população de células de origem ectodérmica geradas nas cristas neurais. Essas células migram lateralmente quando as pregas neurais dobram, chegando até as regiões do futuro crânio e da futura face. Lá, esse tecido de origem neural (ectodérmica) passa a comportar-se como mesênquima, originando estruturas conjuntivas, daí o nome ectomesênquima. O fator indutor inicial está presente no epitélio oral primitivo, que começa a proliferar na 5ª semana de vida intra-uterina, invadindo o ectomesênquima subjacente, formando a banda epitelial primária, uma banda epitelial contínua em forma de ferradura na região onde vão se formar os sacos dentários. Depois disso, ocorrem interações entre o epitélio e o ectomesênquima.
A banda epitelial primária subdivide-se nas lâminas vestibular e dentária
O cordão epitelial, sofre quase imediatamente após sua formação, uma bifurcação, formando duas populações epiteliais proliferativas que seguem a mesma forma dos arcos, correndo, uma paralela à outra. A banda epitelial situada do lado externo, ao continuar a proliferação e aumentar seu número e células sofre degeneração das células centrais, dando lugar a uma fenda que constituirá o futuro fundo de saco do sulco vestibular, por isso essa subdivisão se chama lâmina vestibular. A proliferação celular situada medialmente à anterior é responsável pela formação dos dentes, chamando-se lâmina dentaria, representa o futuro arco dentário. Nela, a proliferação celular continua, levando a um aprofundamento maior do que na lâmina vestibular. Isso se deve, em parte, à modificação da orientação do fuso mitótico das células em divisão: o fuso torna-se perpendicular ao epitélio oral e, dessa maneira, as células filhas superpoẽm-se invadindo cada vez mais o ectomesênquima. Por isso, entre a 6ª e 7ª semana, pouco tempo depois da subdivisão da banda epitelial primária, observa-se apenas a lâmina dentária, devido ao rápido estabelecimento do sulco vestibular. Assim, a lâmina dentária permanece como uma proliferação epitelial em forma de ferradura, seguindo uma orientação perpendicular à superfície do epitélio oral, como a banda epitelial primária, porém aprofundando-se mais no ectomesênquima. As células mais internas da lâmina dentária possuem, como o restante do epitélio oral, uma lâmina basal subjacente que neste local é muito dinâmica. A lâmina basal participa nas interações epitélio-ectomesênquima.

Fase de botão

A fase do botão representa o verdadeiro início da formação do dente

Após sua proliferação inicial uniforme ao longo dos futuros arcos, a lâmina dentária passa a apresentar em alguns locais, atividades mitóticas diferenciais. A partir da 8ª semana então, em cada arco se originam 10 pequenas esférulas que invadem o ectomesênquima, representando o início da formação dos germes dentários decíduos. Na fase de botão, o ectomesênquima subjacente apresenta  uma discreta condensação de suas células em torno da parte mais profunda da esférula epitelial. Nessa região do ectomesênquima aparecem a glicoproteína tenascina e o sindecan – l, uma proteoglicana rica em heparan sulfato. O aparecimento da tenascina e sindecan – l é regulado por sinais a partir das células em proliferação do botão epitelial. As duas moléculas interagem tanto com as próprias células ectomesenquimais e com outros elementos da matriz extracelular quanto com fatores de crescimento, especialmente com o fator de crescimento de fibroblastos (FGF).

Fase de Capuz

A fase de capuz é caracterizada por intensa proliferação das células epiteliais

Com a continuação da proliferação epitelial, o botão continua a crescer, um crescimento desigual que o leva a adotar uma forma que se assemelha a um boné. No centro da parte mais profunda dele, o capuz epitelial apresenta uma concavidade, sob a qual é observada uma maior concentração de células ectomesenquimais do que na fase de botão. Embora no ectomesênquima estejam presentes algumas células em divisão, provavelmente a razão para o aumento da condensação seja a interação célula-matriz extracelular, na qual a tenascina e o sindecan-l continuam desempenhando importante papel. Como o botão epitelial está em ativa proliferação, provavelmente a maior condensação ectomesenquimal seja, em parte, fisicamente responsável pela concavidade inferior do capuz: é provável que a resistência criada pela condensação ectomesenquimal localizada na parte central faça com que a proliferação epitelial do botão resulte principalmente no crescimento da sua borda.

O germe dentário é constituído pelo órgão do esmalte e papila dentária

Estabelecida a fase de capuz, observam-se vários componentes do germe dentário. Órgão do esmalte é porção epitelial, que a partir desta fase apresenta várias regiões distintas, é responsável pela formação do esmalte dentário. Ao observar essa porção epitelial, distingue-se uma camada única e contínua de células que constitui a periferia do órgão do esmalte. As células da concavidade adjacente à condensação ectomesenquimal constituem o epitélio interno do órgão do esmalte e as células localizadas na convexidade externa do capuz, formam o epitélio externo do órgão do esmalte. As células que ficam na região central, entre os epitélios interno e externo, vão se separando umas das outras, fica então maior substância fundamental rica em proteoglicanas entre elas. Assim, elas adotam um aspecto estrelado, com prolongamentos que estabelecem contato entre si através de desmossomos. Essa porção é chamada de retículo estrelado.
Ao mesmo tempo o ectomesênquima aumenta o seu grau de condensação de maneira que observa-se uma massa de células muito próximas umas das outras. Essa condensação celular (papila dentária) é a responsável a partir daí, pela formação da dentina e da polpa.

O folículo dentário rodeia completamente o germe dentário

O ectomesênquima que rodeia o órgão do esmalte e a papila, sofre uma condensação de maneira que suas células alinham-se em torno do germe em desenvolvimento, formando uma cápsula que o separa do restante do ectomesênquima da maxila e da mandíbula. Essa condensação periférica (saco ou folículo dentário), é a responsável pela formação do periodonto de inserção do dente. Capilares penetram o folículo dentário, especialmente perto do epitélio externo. Assim sendo, a nutrição da porção epitelial do germe dentário provém da vascularidade do folículo.

Fase de Campânula

Os processos de morfogênese e diferenciação celular iniciam-se na fase de campânula

Após a fase de capuz vai diminuindo a proliferação das células epiteliais e, portanto, o crescimento do órgão do esmalte, diminuindo a divisão, ocorre a diferenciação das diversas células do germe dentário. Na campânula, a parte epitelial do germe dentário apresenta o aspecto de sino com sua concavidade mais acentuada, margens mais profundas.

Os epitélios externo e interno formam a alça cervical

Na porção epitelial, a região central (retículo estrelado). Continua a crescer em volume por causa do aumento da distância entre as células e seus prolongamentos, fenômeno provocado pela maior quantidade de água, associada a outras moléculas como as proteoglicanas. As células do epitélio externo do órgão do esmalte são achatadas, tornando-se pavimentosas. As do epitélio interno, alongam-se constituindo células cilíndricas baixas com núcleo central e citoplasma com ribossomos livres, poucas cisternas de retículo endoplasmático granuloso e complexo de Golgi. Aparece entre o epitélio interno e o retículo estrelado, duas ou três camadas de células pavimentosas, constituindo o estrato intermediário, que participa na formação do esmalte. Na região onde os epitélios se encontram, ao nível da borda do sino, forma-se um ângulo agudo, região denominada alça cervical. Local em que, no fim da fase de coroa, as fases dos epitélios interno e externo irão proliferar para constituir a bainha radicular de Hertwig, que induz a formação da raiz. No órgão do esmalte, as células de diferentes grupos mantêm-se ligadas entre si por junções intercelulares do tipo gap e desmossomas. A lâmina basal, rodeia o órgão do esmalte no seu contorno total, separando as células dos epitélios interno e externo do órgão do esmalte, do folículo e da papila, respectivamente.
Na papila dentária, as células ectomesenquimais apresentam-se indiferenciadas na sua região central, com finas fibrilas colágenas ocupando a matriz extracelular, junto aos componentes não colágenos como proteoglicanas, glicosaminoglicanas, glicoproteínas, etc. Além disso, os capilares inicialmente presentes no folículo dentário começam também a penetrar a papila dentária, aparecendo em grande número entre as células.

O germe dentário separa-se da lâmina dentária e do epitélio oral

Folículo dentário está mais evidente, pois ele passa a envolver o germe dentário em sua totalidade, inclusive na sua extremidade oclusal. A porção da lâmina dentária entre o órgão do esmalte e o epitélio bucal se desintegra. O osso do processo alveolar em formação em geral acaba rodeando completamente o folículo dentário, constituindo a cripta óssea. O dente em desenvolvimento separa-se do epitélio oral. Porém, grupos de células epiteliais da lâmina permanecem presentes nos pertuitos ósseos, nessa região, formando o gubernáculo, importante para a erupção.

A formação de dobras no epitélio interno determina a forma da coroa do dente

Ocorrem fenômenos morfogenéticos que determinam a forma da cora do dente, devido à formação de dobras no epitélio interno do órgão do esmalte, nos locais onde as primeiras células cessam sua atividade mitótica, antes da diferenciação em ameloblastos, e também ao fato de que a alça cervical permanece fixa. O restante das células do epitélio interno continua se dividindo por mais algum tempo, o aparecimento de novas células ocasiona uma força no epitélio interno em direção aos pontos onde não há mais divisão. Quando a atividade mitótica das células vai terminando sequencialmente a partir dos vértices das cúspides, em direção à alça cervical, as vertentes das cúspides vão se delineando, estabelecendo a forma da futura coroa. Aparecem acúmulos de células epiteliais na região do estrato intermediário, nos futuros vértices das cúspides, formando o nó do esmalte, sua presença tem sido relacionada a determinação da forma da coroa dos dentes.

A dentinogênese inicia-se antes da amelogênese

As células do epitélio interno que estão nos vértices das cúspides, até então cilíndricas baixas com núcleo próximo à lâmina basal, tornam-se cilíndricas altas, com núcleo do lado oposto à papila dentária, fenômeno chamado inversão de polaridade, depois disso elas se transformam em pré-ameloblastos. Neste momento, na papila dentária, as células ectomesenquimais da região periférica, sob influência dos pré-ameloblastos param de se dividir, aumentam de tamanho e começam sua diferenciação em odontoblastos, passando a secretar a primeira camada de matriz de dentina – a dentina do manto. A presença dessa matriz dentinária, cujo constituinte mais abundantes é o colágeno tipo I, e contatos entre os odontoblastos e pré-ameloblastos desencadeiam a diferenciação final destes em ameloblastos, os quais sintetizam e secretam a matriz orgânica do esmalte – que também é basicamente protéica, porém de natureza não colágena.

A indução recíproca resulta na diferenciação de odontoblastos e ameloblastos

Esses eventos começam nos locais correspondentes às futuras cúspides do dente e progridem sequencialmente, descendo pelas vertentes das cúspides até a região da alça cervical. A diferenciação dos odontoblastos é induzida, com participação da lâmina basal, pelas células do epitélio interno do órgão do esmalte, que após a inversão de sua polaridade chamam-se pré-ameloblastos. Em estágio posterior, com a presença da primeira camada de dentina, completa-se a diferenciação dos pré-ameloblastos que se tornam, assim, ameloblastos. Diversos produtos como fatores de crescimento e fatores de transcrição, moléculas de adesão, integrinas e elementos da matriz extracelular participam das várias interações epitélio-ectomesênquima que, juntas, constituem a indução recíproca, fenômeno que caracteriza a fase de campânula.

Fase de Coroa

Dentinogênese e amelogênese ocorrem na fase de coroa

A fase de coroa corresponde a fase em que há deposição de dentina e esmalte da coroa do futuro dente. Esta fase progride desde os locais correspondentes às futuras cúspides para a região cervical. Num mesmo germe dentário pode ser observada, na região próxima à alça cervical, zonas nas quais o epitélio interno do órgão do esmalte não sofreram ainda inversão de polaridade. E se examinada uma região adjacente na mesma vertente, só que mais próxima da cúspide, observam-se pré-ameloblastos. Já na papila os pré-odontoblastos estarão começando sua diferenciação para se tornarem odontoblastos. Examinando, regiões adjacentes na mesma direção, odontoblastos já estarão secretando os constituintes da matriz orgânica da primeira camada de dentina. Ou seja, quanto mais próximo da cúspide, mais avançado o estágio.

A formação da dentina é centrípeta enquanto que a da esmalte é centrífuga

A fase de coroa caracteriza-se pela deposição da dentina de fora para dentro e do esmalte de dentro pra fora.

Fase de Raiz

Proliferação celular na alça cervical origina o diafragma epitelial e a bainha reticular de Hertwig

Durante a formação da porção coronário é necessária a presença de células epiteliais (do epitélio interno do órgão do esmalte) para induzir as células ectomesenquimais (da papila dentária) a se diferenciarem em odontoblastos. Pelo fato da porção radicular do dente ser constituída também por dentina, é também necessária a presença de células  de origem epitelial para o processo de diferenciação dos odontoblastos ter início. No final da fase de coroa, quando os eventos de diferenciação alcançam a alça cervical, os epitélios interno e externo do órgão do esmalte que constituem a alça, proliferam em sentido apical para induzir a formação da raiz. As células resultantes da proliferação não se aprofundam verticalmente, talvez devido a presença do folículo dentário e à do osso da base da cripta que rodeiam a base do germe dentário. Por esse motivo, o epitélio resultante da proliferação das duas camadas da alça cervical sofre uma dobra, constituindo o diafragma epitelial. Como não há aprofundamento no sentido vertical, a região proliferativa fica restrita à dobra que se continua com o diafragma epitelial. A partir desse momento, as células epiteliais continuam a proliferar, originando outra estrutura: a bainha epitelial radicular de Hertwig. Assim, as duas estruturas, bainhas radiculares e diafragma epitelial, são contínuas e constituídas pelas mesmas células.

A fase de raiz ocorre enquanto o dente erupciona

Como a continuação da proliferação da bainha coincide com o início da erupção, enquanto vai sendo formada a raiz do dente, o germe dentário movimenta-se no sentido coronário. Antigamente acreditava-se que a proliferação da bainha durante a formação da raiz ocorria no sentido apical, com aprofundamento gradual em direção ao futuro ápice radicular.

Os restos epiteliais de Malassez originam-se da fragmentação da bainha de Hertwig

Para a formação da dentina radicular, as células da camada interna da bainha radicular de Hertwig induzem as células ectomesenquimais da papila dentária a se diferenciarem em odontoblastos. As células da região da bainha que exerceram a indução cessam sua proliferação, secretando, sobre a dentina radicular em formação, uma fina matriz cuja composição é similar à matriz inicial do esmalte. Enquanto isso, os odontoblastos recém-diferenciados formam dentina radicular, aumentando gradualmente o comprimento da raiz. Pelo fato de apenas as células da bainha localizadas imediatamente adjacentes ao diafragma epitelial continuarem proliferando, enquanto as mais afastadas, que já induziram a diferenciação dos odontoblastos, não mais se dividem, gera-se uma defasagem com o crescimento da raiz. A contínua formação de dentina e a parte da bainha que não acompanha esse crescimento são responsáveis por esse fato. Por essa razão, apenas a porção mais apical da bainha de Hertwig continua em contato com a raiz. No restante da bainha, localizado mais cervicalmente, aparecem espaços devido ao aumento da superfície de dentina radicular subjacente, fenômeno denominado fragmentação da bainha de Hertwig. O contínuo crescimento da raiz provoca aumento progressivo dos espaços, que coalescem reduzindo a bainha a cordões celulares. Com o progresso dessa fragmentação, os cordões se rompem, constituindo grupos isolados de células, os restos epiteliais de Malassez, que aparecem em cortes histológicos como grupos de 3 a 6 células separadas da matriz extracelular do ligamento periodontal por uma lâmina basal contínua. Essas células epiteliais possuem poucas organelas, refletindo seu aparente estado inativo.
Em casos de alterações patológicas do ligamento periodontal, as células dos restos epiteliais de Malassez podem se tornar ativas e proliferar. Desse modo, podem originar cistos periodontais, laterais ou apicais, segundo sua localização.

O periodonto de inserção é formado durante a fase de raiz

A fase de raiz, assim como a odontogênese em si, concluem-se com a formação da dentina radicular, até o fechamento do ápice. Os tecidos que compõem o periodonto de inserção formam-se também durante a fase de raiz.

Cemento, ligamento periodontal e osso alveolar são formados simultaneamente

A fragmentação da bainha radicular epitelial de Hertwig permite o contato do folículo dentário com a dentina radicular em formação. Assim, após contatar com a dentina, as células ectomesenquimais do folículo diferenciam-se em cementoblastos, secretando a matriz orgânica do cemento. Simultaneamente, as células do lado externo do folículo diferenciam-se em osteoblastos, formando o osso alveolar, enquanto as da região central tornam-se principalmente fibroblastos e formam o ligamento periodontal. Dessa maneira, as fibras colágenas principais do ligamento são formadas ao mesmo tempo que o colágeno que constitui a matriz do cemento e do osso alveolar, possibilitando que as extremidades das fibras do ligamento (fibras de Sharpey), fiquem inseridas quando o cemento e o osso se mineralizam.

O epitélio reduzido recobre o esmalte até a erupção se completar

Enquanto ocorre a fase de raiz e o dente erupciona, na coroa, aumenta o teor mineral do esmalte durante sua maturação pré-eruptiva. Posteriormente, o órgão do esmalte colapsa completamente, constituindo o epitélio reduzido do esmalte, recobrindo este tecido até o aparecimento da coroa na cavidade oral. Após a completa erupção do dente, o epitélio reduzido contribuirá para a formação do epitélio juncional da gengiva.

Os dentes permanentes que têm predecessor decíduo desenvolvem-se a partir do broto permanente


Essa sequência é idêntica para os dentes decíduos e permanentes. Os dentes permanentes que tem predecessor decíduo desenvolvem-se a partir de uma proliferação epitelial em relação a face palatina ou lingual do germe decíduo, denominado broto do permanente, cuja formação ocorre durante a fase de capuz do decíduo. Os molares permanentes entretanto, desenvolvem-se diretamente da lâmina dentária original, que se estende posteriormente.

Fonte:

KATCHBURIAN, Eduardo. Histologia e embriologia oral: texto, atlas, correlações clínicas. 3. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012.

Esmalte - Histologia Oral

O esmalte é o único tecido mineralizado de origem epitelial

Esmalte, a estrutura que recobre a coroa dos dentes, é o tecido mais mineralizado do organismo. Entretanto, diferentemente dos outros tecidos calcificados o mesmo dos outros tecidos dentários, o esmalte é formado por células epiteliais originadas do ectoderma. Além disso, quando totalmente formado e após a erupção do dente, é o único tecido mineralizado completamente acelular, isto é, o único que não mantém relação com as células que o formaram.

A natureza cristalina do esmalte deve-se ao seu alto conteúdo inorgânico

A extrema dureza do esmalte deve-se ao seu alto conteúdo inorgânico (97%), representado por cristais de fosfato de cálcio sob a forma de hidroxiapatita, com quantidades de carbonato, sódio, magnésio, cloreto, potássio e flúor, no meio a 1% de material orgânico de natureza basicamente protéica, com escassos carboidratos e lipídios, e por 2% de água. Essa composição faz do esmalte um tecido extremamente friável, apesar de sua dureza. Por esse motivo, a dentina subjacente, um tecido mais resiliente, confere sustentação e reduz a possibilidade de fratura durante a mastigação. Embora a cor do esmalte varie do branco-acinzentado ao branco-amarelado, sua estrutura quase exclusivamente cristalina resulta em uma aparência translúcida. Quanto maior o grau de mineralização do esmalte, maior é a sua natureza cristalina e, portanto, sua translucidez. Isso influencia na cor do dente,  translucidez, juntamente com a delgada espessura do esmalte (máxima de 2,5mm da região dos vértices das cúspides e bordas incisais), permitem ver a cor amarelada da dentina adjacente.
A cor mais branca dos dentes decíduos, se comparados com os correspondentes permanentes, deve-se à menor translucidez do esmalte. Todavia, os dentes permanentes, quando recém-erupcionados, também exibem uma cor branca. Com maior exposição na boca, o esmalte aumenta sua translucência, por causa da maturação pós-eruptiva, deixando, portanto, aparecer mais a cor da dentina subjacente.

Desenvolvimento (Amelogênese)

Os ameloblastos passam por várias fases funcionais durante a amelogênese

As células do epitélio interno do órgão do esmalte diferenciam-se em ameloblastos, as células que formarão o esmalte. Entretanto, os pré-ameloblastos completam sua diferenciação em ameloblastos só após a deposição da primeira camada de dentina. Assim a formação propriamente dita do esmalte inicia-se durante a fase de coroa. Isso significa que, desde a fase em que são células indiferenciadas do epitélio interno do órgão do esmalte até que é completada a formação e a maturação pré-eruptiva do esmalte, os ameloblastos passam por fases sucessivas de desenvolvimento, as quais constituem o chamado ciclo vital. Essas fases, que envolvem, portanto, o processo completo da amelogênese são: morfogenética, de diferenciação, secretora, de maturação e protetora.

Fase Morfogenética

O epitélio interno do órgão do esmalte determina a forma da coroa do dente

Corresponde ao início da fase de campânula, quando nas regiões dos vértices das futuras cúspides (ou borda incisal) do dente as células do epitélio interno do órgão do esmalte param de se dividir, determinando que a forma da coroa do dente seja estabelecida pela dobra desse epitélio, devido ao seu crescimento diferencial como um todo. As células até então se multiplicando por sucessivas divisões, são cúbicas, com núcleo ovóide, grande e central, ou levemente próximo à lâmina basal que as separa da papila dentária; o citoplasma possui numerosos ribossomas livres, polirribossomas, mitocôndrias esparsas e complexo de Golgi pouco desenvolvido, localizado na região adjacente ao retículo estrelado. Isso sugere que nesta fase o material sintetizado pelas células do epitélio interno é destinado principalmente a fins intracelulares, por exemplo, desenvolvimento de organelas.

Fase de Diferenciação

Com a inversão da sua polaridade, as células do epitélio interno do órgão do esmalte tornam-se pré-ameloblastos

Após o período de divisão, as células do epitélio interno alongam-se, alcançando quase o dobro da sua altura original. Desse modo, as células que inicialmente eram cúbicas passam a ser cilíndricas. Coincidentemente, duas ou três camadas de células achatadas aparecem nitidamente localizadas entre as células do epitélio interno e o retículo estrelado, constituindo uma nova estrutura no órgão do esmalte, o estrato intermediário. Com o alongamento da células do epitélio interno ocorre inversão de polaridade: o núcleo fica localizado do lado da célula próximo ao recém-formado estrato intermediário, constituindo o novo pólo proximal, enquanto que o complexo de Golgi migra em sentido inverso, ou seja, para o lado próximo à papila dentária, determinando por sua vez, o novo pólo distal; desenvolvem-se também cisternas de retículo endoplasmático granular, as quais orientam-se paralelas ao eixo longitudinal da célula. Esse eventos coincidem com o aparecimento de um citoesqueleto bem desenvolvido, constituído por numerosos microtúbulos orientados paralelamente ao longo eixo da célula. Nesse estágio de desenvolvimento, com a nova disposição do núcleo e das organelas, as células denominam-se pré-ameloblastos.

A diferenciação dos pré-ameloblastos ocorre gradualmente, até tornarem-se ameloblastos secretores

Os pré-ameloblastos induzem a diferenciação das células da periferia da papila dentária. Enquanto isso, o processo de diferenciação dos futuros ameloblastos continua gradualmente, completando-se a diferenciação só após a presença da primeira camada de matriz orgânica de dentina. A altura dos pré-ameloblastos aumenta mais um pouco, tornando-se células cilíndricas altas, com aproximadamente 30μm; o complexo de Golgi e o retículo endoplasmático granular desenvolvem-se ainda mais. As mitocôndrias localizam-se, na sua maioria, na região proximal. Inicia-se também a liberação de enzimas lisosomais através de seu pólo distal, que degradam e tornam descontínua a lâmina basal. Ao mesmo tempo desenvolvem-se numerosos e curtos porcessos na superfície distal, que se projetam para a matriz da dentina que está apenas começando sua mineralização. Esses processos dos pré-ameloblastos foram contatos com processos de odontoblastos e com vesículas da matriz. Entre os pré-ameloblastos, estabelecem-se junções intercelulares do tipo gap, desmosomas e oclusivo nos dois pólos celulares, formando desse modo, os complexos juncionais proximais e distais. Após esses eventos, os pré-ameloblastos tornam-se ameloblastos diferenciados, prestes a secretar matriz de esmalte.

Fase Secretora

Devido à restrição da via intercelular, a formação do esmalte é exclusivamente controlada pelos ameloblastos

No início desta fase, o órgão do esmalte é constituído pelo epitélio externo, o retículo estrelado, o estrato intermediário e os ameloblastos recém-diferenciados nas regiões dos vértices das futuras cúspides e bordas incisais. Entretanto, como a amelogênese começa nessas regiões e progride em direção à alça cervical, existe um gradiente de ameloblastos, pré-ameloblastos e células indiferenciadas do epitélio interno. No início dessa fase, todos os componentes do órgão do esmalte ligam-se entre si através de junções intercelulares (gap e desmosomas). Entre os ameloblastos recém-diferenciados, as junções oclusivas dos complexos juncionais distais, já observados entre os pré-ameloblastos, desenvolvem-se ainda mais, passando a constituir extensas fileiras. Desse modo, a formação do esmalte, e sobretudo, sua mineralização são reguladas exclusivamente pelos ameloblastos, devido a resultante restrição da via intercelular.

No início da fase secretora os ameloblastos possuem sua superfície distal plana

A fase secretora marca o início da amelogênese propriamente dita: os ameloblastos já possuem todas as características ultra-estruturais das células sintetizadoras e secretoras de proteínas. O retículo endoplasmático granular, constituído por várias cisternas, inicia a síntese de moléculas da matriz orgânica do esmalte. Seguem-se, a condensação e o empacotamento do material no complexo de Golgi, sendo posteriormente observados grânulos de secreção envolvidos por membrana no citoplasma distal dos ameloblastos, contendo material orgânico. Esses grânulos migram para o pólo distal e são liberados nos espaços intercelulares e sobre a dentina do manto, que por volta dessa época está consolidando seu processo de mineralização. Entretanto, as organelas estão dispostas de maneira singular nos ameloblastos secretores: o retículo endoplasmático granular é constituído por numerosas cisternas paralelas entre si e alinhadas seguindo o longo eixo do ameloblasto, localizando-se distalmente em relação ao complexo de Golgi, diferente do usualmente observado nas células que sintetizam proteínas para exportação. A superfície distal dos ameloblastos, nos primeiros momentos da fase secretora, é mais ou menos plana, apresentando, porém, numerosas e curtas protrusões com aspecto de microvilos e invaginações.

A matriz orgânica do esmalte é constituída por proteínas distintas das que constituem as matrizes de natureza colágena

A composição da matriz do esmalte é basicamente protéica, contendo carboidratos e lipídios. Deve-se salientar que as proteínas dessa matriz não são de natureza colágena, característica esta que a distingue da matriz dos outros tecidos mineralizados e que expressa claramente a origem não conjuntiva do esmalte. Classicamente são reconhecidos dois grupos de proteínas na matriz de esmalte recém-secretada: as amelogeninas e suas isoformas, as mais abundantes e hidrofóbicas, ricas em prolina e as enamelinas, que são fosfoproteínas glicosiladas acídicas. Nos últimos anos foram identificados novos e vários tipos de proteínas, sendo agora considerados, portanto, também dois grandes grupos: as amelogeninas e as não amelogeninas. Neste segundo grupo incluem-se fosfoproteínas glicosiladas acídicas – enamelina e tufelina – e glicoproteínas sulfatadas – ameloblastina e suas frações, amelina e bainhalina.
A mineralização do esmalte começa imediatamente após o início de secreção da matriz orgânica. Entretanto, a mineralização inicial chega apenas até 15% do total da matriz recém-formada, sendo, portanto, o esmalte jovem constituído principalmente por componentes orgânicos. Os primeiros cristais de mineral, ou seja, de hidroxiapatita, são depositados em contato direto com a dentina do manto, que, neste estágio, forma uma camada mineralizada contínua. Assim, forma-se inicialmente uma primeira camada mais ou menos homogênea de esmalte com os cristais de mineral mais ou menos alinhados perpendiculares à superfície de dentina. Por não serem observadas vesículas da matriz durante o início da mineralização do esmalte, acredita-se quem sejam cristais de fosfato de cálcio da dentina do manto os agentes nucleadores para desencadear esse processo no esmalte, em associação com algum componente da matriz do esmalte. A esse respeito , foi observado recentemente que a enamelina, pela sua característica acídica, liga-se às fibrilas colágenas da dentina do manto mineralizada. Outros estudos apontam para a capacidade da proteína tufelina como agente nucleador de mineral. A interação entre as duas proteínas acídicas da matriz do esmalte jovem, enamelina e tufelina, desencadearia, o começo da mineralização, ou seja, a formação dos característicos cristais em forma de fita. Nesse estágio, as moléculas de amelogenina se agregam formando pequenos glóbulos de 20nm de diâmetro, denominados nanosferas. Estas alinham-se helicoidalmente, orientando dessa maneira, o crescimento dos cristais de mineral.

Após a deposição de uma delgada camada aprismática, os ameloblastos desenvolvem o processo de Tomes

Como consequência da deposição da primeira camada de esmalte, que nos dentes humanos alcança ao redor de 30μm de espessura, os ameloblastos afastam-se em direção ao estrato intermediário, desenvolvendo uma curta projeção cônica a partir do seu citoplasma distal, o processo de Tomes. O aparecimento dessa nova estrutura no pólo distal dos ameloblastos inicia a segunda parte da fase secretora, em razão dessas projeções passarem a comandar a orientação do esmalte em formação.

Nas regiões que contêm ameloblastos secretores, ocorre involução dos demais elementos do órgão do esmalte

Enquanto a camada de ameloblastos secreta ativamente e apresenta, no conjunto, sua porção distal com aspecto serrilhado, devido à presença dos processos de Tomes, os outros constituintes do órgão do esmalte sofrem também algumas modificações: as células do estrato intermediário passam a exibir alta atividade da enzima fosfatase alcalina enquanto o retículo estrelado perde parte do seu material intercelular. Como consequência disso, a totalidade do órgão do esmalte, na região correspondente à matriz em formação, sofre colapso, permitindo a aproximação entre a camada de ameloblastos e o epitélio externo e, portanto, entre os ameloblastos e o folículo dentário. Assim sendo, o folículo representa a única fonte de nutrição, pois a dentina calcificada impede a passagem de nutrientes provenientes dos vasos sanguíneos da papila dentária. Portanto, os vasos do folículo dentário passam a constituir a fonte de nutrientes dos ameloblastos para a secreção das moléculas da matriz e continuação do processo de mineralização. Além disso, nesse estágio da amelogênese, vasos sanguíneos do folículo penetram na região do retículo estrelado através de invaginações do epitélio externo, chegando próximo ao estrato intermediário e aos ameloblastos.

A formação do esmalte prismático ocorre através dos processos de Tomes

Após o desenvolvimento dos processos de Tomes, os ameloblastos formam um esmalte estruturalmente diferente, constituído pelo arranjo dos cristais de mineral em unidades características denominadas prismas, devido à mudança na movimentação dos ameloblastos durante a deposição da matriz e mineralização. Os processos de Tomes contêm grânulos de secreção, vesículas, túbulos, lisosomas, fagosomas e vesículas cobertas, bem como em algumas regiões, profundas invaginações da membrana plasmática. Estabelece-se assim, um desenvolvido sistema endosômico-lisosômico nos processos de Tomes. É através das pequenas reentrâncias formadas na sua face plana secretora (superfície “S”) que ocorre a liberação dos grânulos que contêm a matriz orgânica do esmalte; na face côncava do processo (superfície “N”), não ocorre secreção. O estabelecimento do sistema endosômico-lisosômico na porção distal do ameloblasto secretor, incluindo o processo de Tomes, está relacionado com a liberação de enzimas, do tipo metaloproteinases, entre elas a enamelisina (MMP-20) e a serinoprotease, para o esmalte jovem, promovendo a degradação parcial e reabsorção de moléculas da matriz. Com o avançar da secreção, os outros constituintes do órgão do esmalte, ou seja, o estrato intermediário, o retículo estrelado e o epitélio externo, completam seu colapso, passando a compor uma só estrutura constituída por duas ou três camadas de células pavimentosas, que fica adjacente à camada ameloblástica. Os processos de involução dos componentes do órgão do esmalte, ocorrem, provavelmente, por apoptose.

Ao finalizar a fase secretora, o ameloblasto não mais apresenta processo de Tomes

A formação do esmalte, seguindo o padrão já descrito, continua até a deposição das últimas camadas, após o que o processo de Tomes não mais está presente na superfície distal do ameloblasto. Entretanto, mais algumas camadas podem ser ainda depositadas, estabelecendo o esmalte aprismático superficial.

Fase de Maturação

A degradação e remoção da matriz orgânica permite o crescimento dos cristais de mineral

Após a deposição da fina camada superficial de esmalte aprismático, os ameloblastos reduzem sua altura, diminuindo suas organelas relacionadas com síntese e secreção, através de mecanismos de autofagia. Desse modo, os ameloblastos mostram-se nessa fase de maturação, como células cilíndricas baixas, apresentando sua superfície distal lisa ou com dobras, assemelhando-se neste último caso, à borda estriada das células clásticas. Enquanto os primeiros estão envolvidos na remoção de elementos orgânicos e água, os últimos participam no rápido bombeamento de íons cálcio e fosfato para a matriz, permitindo também o rápido crescimento dos cristais de hidroxiapatita. Além disso, nesta fase, o alto conteúdo inicial de amelogeninas é reduzido através da degradação, provavelmente, pela ação de metaloproteinases. Esse evento parece ser importante para o aumento do componente mineral, já que as amelogeninas em cultura inibem o crescimento de cristais. Os cristais minerais em forma de fita, após o início da remoção de material orgânico da matriz, aumentam rapidamente de largura em mais ou menos duas ou três vezes, enquanto sua espessura aumenta mais lentamente, alcançando porém, dimensões uase oito vezes maior que as iniciais. O aumento no tamanho dos cristais é acompanhado pela fusão de vários deles, de modo que no início da fase de maturação existem aproximadamente 1200 cristalitos por μm². A presença simultânea de dois grupos de ameloblastos e sua alternância é responsável pelos eventos cíclicos de remoção de elementos orgânicos e influxo de íons para a matriz. Contudo, com a fase secretora, a fase de maturação também ocorre de modo centrífugo, Assim, esta fase inicia-se nas camadas mais profundas e termina quando a superfície externa é completamente mineralizada.
Esta fase corresponde, na verdade, à maturação pré-eruptiva, pois uma vez na cavidade oral, o esmalte sofrerá um processo de maturação pós-eruptiva.

Fase de Proteção

O epitélio reduzido recobre o esmalte maduro até a erupção do dente

Uma vez completada a maturação do esmalte, os ameloblastos perdem a ondulação da sua superfície distal, a qual torna-se definitivamente lisa. A altura das células diminui ainda mais, o que as transforma em células cúbicas, que secretam um material semelhante à lâmina basal localizada entre as células do epitélio externo e o folículo dentário adjacente. Esse material é depositado sobre o esmalte recém-formado. Todavia são formados hemidesmosomas que ligam os ameloblastos  essa lâmina basal. Externamente a esta camada de células, os outros componentes do órgão do esmalte, que já na fase de maturação mostravam-se francamente reduzidos, nesta fase perdem por completo sua identidade. Estabelece-se assim, com a camada de ameloblastos protetores, o epitélio reduzido do esmalte, estrutura que reveste a coroa do dente até sua erupção na cavidade oral, separando-a do conjuntivo adjacente. Esse epitélio reduzido contribuirá para a formação do epitélio juncional da gengiva.
Caso o epitélio reduzido perca a sua continuidade, o esmalte fica em contato com o folículo dentário que rodeia o dente em erupção. Nesse caso pode haver a reabsorção dessa área de esmalte através de odontoclastos ou  deposição de um tecido mineralizado semelhante ao cemento, a partir das células do folículo dentário.
Com a exposição do esmalte na cavidade oral e o avançar da idade ocorrem modificações químicas e estruturais. Essas midificações incluem perda de água, diminuição do conteúdo orgânico e aumento da cristalinidade.

Estrutura

O esmalte possui estrutura prismática

O esmalte maduro tem a maior parte de sua espessura constituída por unidades estruturais em formas de barras, chamados prismas. As zonas periféricas dessas barras, chamadas regiões interprismáticas, completam a estrutura cristalina do esmalte.

Prismas

Prismas e regiões interprismáticas são determinados pela orientação dos cristais de mineral

Os prismas são barras ou colunas mais ou menos cilíndricas que se estendem desde a estreita camada de esmalte aprismático, que foi depositada ao início da amelogênese, até a superfície externa do esmalte. Entretanto, em algumas regiões superficiais, os prismas são recobertos por esmalte aprismático. Os cristais de hidroxiapatita densamente empacotados dispõem-se seguindo mais ou menos o longo eixo do prisma. Entretanto, a exata orientação no sentido longitudinal apenas se mantém na região central do eixo. Daí a periferia do prisma, a orientação dos cristais muda, mostrando uma inclinação progressiva, quanto mais próximo do limite do prisma. O encontro de cristais da periferia de um prisma com grupos de cristais dos outros prismas adjacentes ou da região interprismática, os quais tem orientação diferente, leva à identificação da denominada bainha. As outras zonas do esmalte são, então, as regiões interprismáticas nas quais cristais de hidroxiapatita apresentam-se também densamente empacotados, preenchendo as zonas entre as regiões centrais dos prismas. Embora há algum tempo acreditava-se no contrário, não existe diferença entre o conteúdo mineral dos prismas e o das regiões interprismáticas, pois há diferença apenas no que se refere à orientação dos cristais.

A fase mineral do esmalte é constituída por cristais de hidroxiapatita de grande tamanho

A fase mineral do esmalte é constituído por fosfato de cálcio sob a forma de cristais de hidroxiapatita com aspecto de barras hexagonais de 20 a 60 nm de espessura e 30 a 90nm de largura, com comprimento variável. Apesar do seu grande tamanho, possuem basicamente a mesma constituição daqueles encontrados nos tecidos mineralizados de natureza conjuntiva, embora estejam embebidos em uma escassa matriz orgânica em forma de gel, que ocupa apenas 1% do volume total do esmalte.

No esmalte maduro, algumas das proteínas remanescentes têm disposição preferencial

A diferença entre prismas e regiões interprismáticas reside apenas da diferente orientação e disposição dos cristais. Isso significa que a proporção de matriz orgânica remanescente é similar em todas as regiões, embora as diferentes proteínas tenham, em alguns casos, disposição diferencial. Um exemplo disso é a presença de uma das glicoproteínas sulfatadas na região da bainha dos prismas, por isso chamada bainhalina. Além disso, embora os prismas sejam considerados barras com formato cilíndrico, eles não são retilíneos, apresentando leves ondulações ao longo do seu percurso desde as proximidades do limite com a dentina até a superfície externa. A disposição dos prismas é um pouco difícil de compreender sem saber como eles se formam.
O condicionamento ácido provoca no esmalte um desgaste superficial, formando saliências e reentrâncias. Dessa maneira, formam-se regiões de microrretenção cuja característica depende da orientação dos prismas.

Os prismas são formados somente através da face plana do processo de Tomes

Apesar dos processos de Tomes serem considerados projeções cônicas da porção distal dos ameloblastos, eles possuem uma face ou vertente plana, enquanto as outras são curvadas (côncavas). Quando um germe dentário é cortado seguindo uma orientação paralela ao seu eixo longitudinal até se obter um corte vertical ao limite amelodentinário na região das cúspides, pode ser observado que o vértice do processo de Tomes não é localizado no centro, apresentando-se deslocado. Mais próximo do lado da vertente plana. A vertente do outro lado é levemente curvada, sendo que, após chegar até a base do processo, a curvatura volta a se dirigir em sentido distal para s encontrar com a vertente plana do processo de Tomes do ameloblasto adjacente. A superfície secretora do processo de Tomes é representada apenas pela curta vertente plana (superfície “S”); a superfície curvada da outra vertente não secreta (superfície “N”). Já quando os ameloblastos são cortados também longitudinalmente, porém em ângulo de 90 graus com relação ao corte anterior, as superfícies “S” encontram-se planas e horizontais, sendo contornadas por curtas vertentes côncavas não secretoras, as quais representam, a continuação das superfícies “N”.

A disposição dos cristais que formam os prismas deve-se à direção da movimentação dos ameloblastos durante a fase secretora

Durante a deposição de matriz orgânica e dos cristais de mineral apenas através da superfície “S”, os ameloblastos recuam contínua e centrifugamente seguindo uma direção que forma um ângulo de 90 graus com o plano da superfície “S”. Por essa razão, os cristais depositam-se adotando uma disposição paralela entre si apenas na frente das superfícies “S”, ficando inclinados nas regiões correspondentes a superfícies “N”. Estabelecem-se assim, respectivamente, os prismas e as regiões interprismáticas. Os prismas são levemente ondulados desde a junção amelodentinária até a superfície externa, razão pela qual diversos planos de corte do esmalte resultam em aparência de “ferradura” ou orifício de fechadura”. Além disso, a orientação dos prismas na região cervical dos dentes decíduos é horizontal, enquanto nos dentes permanentes os prismas dessa região são inclinados em sentido apical.
A utilização de instrumentos rotatórios no esmalte provoca a formação de uma camada amorfa denominada smear-layer recobrindo os prismas.

Estrias Incrementais de Retzius

A formação do esmalte segue um padrão incremental

Na formação do esmalte ocorrem períodos de repouso, que se refletem na presença de linhas incrementais de crescimento, estrias ou linhas de Retzius. As linhas refletem a mudança de direção dos ameloblastos durante a formação dos prismas. Após os períodos de repouso, os ameloblastos recomeçam a deposição de matriz, com a consequente mineralização inicial, mudando levemente de direção. Dessa maneira aparecem linhas que em preparações longitudinais de dentes desgastados são escuras, dando a falsa impressão de serem hipomineralizadas.
Distúrbios sistêmicos nas crianças podem afetar o processo de amelogênese, resultando em períodos de repouso mais prolongados e, portanto, em estrias de Retzius mais evidentes. Desse modo, a linha neonatal, que se forma por ocasião do nascimento, constitui uma estria de Retzius acentuada
As estrias de Retzius aparecem seguindo uma orientação oblíqua desde a junção amelodentinária até a superfície externa, com exceção dos vértices das cúspides e das bordas incisais, onde não atingem a superfície. Em cortes transversais, as estrias de Retzius aparecem como anéis concêntricos que se assemelham ao padrão das camadas dos tecidos do tronco de uma árvore. Em geral, a distância entre as linhas incrementais de Retzius é muito variável, tendo sido observados intervalos de 4μm a 150μm.

Estriações Transversais

Os prismas apresentam leves constrições transversais

Embora os períodos de repouso na secreção do esmalte gerem as estrias de Retzius, em algumas regiões de esmalte desgastado são observadas também leves estriações que aparecem transversais em relação ao longo eixo dos prismas. Como diariamente são formados aproximadamente 4μm de esmalte, essas estriações transversais poderiam representar o ritmo circadiano na produção do esmalte pelos ameloblastos. Entretanto, outras hipóteses têm sido formuladas sobre o significado dessas estriações: micrografias eletrônicas de varredura às vezes mostram leves constrições nos prismas, as quais poderiam ser observadas na microscopia de luz como estriações. Por outro lado, pelo fato das regiões interprismáticas estarem separadas por aproximadamente 4μm, prismas cortados obliquamente poderiam ser observados como estriações transversais. Contudo, a dificuldade em se obter cortes de esmalte devidamente orientados dificulta a exata interpretação dessas estriações observadas nas preparações por desgaste.

Bandas de Hunter-Schreger

As bandas de Hunter-Schreger representam apenas um fenômeno óptico

O trajeto sinuoso que os prismas seguem faz com que, quando observadas preparações por desgaste em sentido longitudinal de dentes não descalcificados, os prismas apareçam cortados em planos diferentes nas regiões onde ocorrem as leves curvaturas. Assim sendo, ocorre desvio da luz incidente durante a observação ao microscópio de luz, originando bandas claras e escuras, as bandas de Hunter-Schreger.

Esmalte Nodoso

Os prismas entrecruzam-se nos vértices das cúspides

As leves curvaturas dos prismas, que determinam seu trajeto sinuoso, não interferem no arranjo nas superfícies laterais da coroa do dente nem nas vertentes das cúspides. Entretanto, nas regiões dos vértices das cúspides, alguns prismas entrecruzam-se irregularmente uns com os outros desde a junção amelodentinária até a superfície externa do vértice da cúspide, constituindo uma região chamada esmalte nodoso.

Tufos, Lamelas e Fusos

Estruturas sempre presentes no esmalte, originadas em diversas fases da amelogênese que se detectam nas preparações de dente desgastado, principalmente em cortes transversais.

Os tufos do esmalte são áreas hipomineralizadas que contêm a proteína tufelina

Os tufos do esmalte, possuem esse nome pela sua aparência que lembra tufos de grama. Entretanto, na realidade são finas e curtas fitas onduladas que se originam na junção amelodentinária alcançando no máximo um terço da espessura do esmalte. Com as preparações por desgaste possuem espessura considerável, a ondulação dessas áreas hipomineralizadas resulta na aparência de tufos. Recentemente, uma proteína acídica foi identificada nesta região, chamada tufelina.

As lamelas são regiões hipomineralizadas que chegam até a superfície externa

As lamelas são também áreas hipomineralizadas em forma de fita, porém, estas são mais longas, alcançando frequentemente a superfície externa do dente. Por essa razão, nas preparações por desgaste as lamelas parecem verdadeiras rachaduras no esmalte.
Os tufos e as lamelas representam áreas hipomineralizadas de esmalte, possivelmente gerada durante os momentos finais da fase de maturação. Ambos seguem a mesma direção dos prismas, sendo melhor observados em dentes cortados transversalmente.

Os fusos do esmalte são continuações dos túbulos dentinários

Os fusos do esmalte originam-se nos primeiros momentos da amelogênese, na fase de diferenciação. Quando os odontoblastos em diferenciação começam a secreção da matriz orgânica da dentina do manto e a lâmina basal torna-se descontínua, alguns dos seus processos penetram entre dois pré-ameloblastos em diferenciação, invadindo, portanto, a região do futuro esmalte. Quando começa a fase secretora, os ameloblastos secretam a matriz do esmalte que logo inicia sua mineralização. Desse modo, forma-se esmalte em volta da extremidade mais distal do processo odontoblasto. Assim, os fusos do esmalte não são mais que a continuação dos túbulos dentinários. Os fusos são mais frequentes nas regiões dos vértices das cúspides e seguem uma orientação perpendicular à junção amelodentinária.

Estruturas Superficiais

Microscopicamente a superfície do esmalte é irregular

Regiões mais ou menos lisas de esmalte aprismático alternam-se com outras nas quais é possível distinguir a parte mais externa dos prismas e das regiões interprismáticas com diversos graus de irregularidade. Observam-se algumas depressões que correspondem ao local onde estava o processo de Tomes no final da fase secretora. Além disso, na metade cervical detectam-se as periquimácias.

Periquimácias

As periquimácias representam a parte superficial das estrias de Retzius

Nas regiões cervical e média da coroa as estrias de Retzius terminam na superfície externa do dente. Ao serem observadas externamente, correspondem a leves depressões lineares no sentido horizontal, que causam leves ondulações na superfície externa do esmalte. Essas linhas denominam-se periquimácias e são mais acentuadas quanto mais próximas estão do colo do dente. As periquimácias são fáceis de se observar no microscópio eletrônico de varredura, sobretudo em dentes recém-erupcionados. Uma vez na boca. Com o desgaste funcional da superfície do esmalte, as periquimácias tendem a desaparecer.

Esmalte Aprismático

O esmalte aprismático está presente tanto em dentes decíduos como em permanentes

Em muitas regiões do esmalte superficial, os cristais não se dispõem constituindo prismas ou regiões interprismáticas, mas formando uma camada de estrutura mais ou menos homogênea (esmalte aprismático). Nesta, os cristais estão alinhados paralelos entre sie perpendiculares à superfície externa. O esmalte aprismático é formado por ameloblastos que não mais apresentam processo de Tomes.
O esmalte aprismático está presente tanto em dentes decíduos como em permanentes, embora nos primeiros constitua uma camada mais regular. Assim, nos dentes decíduos recém-erupcionados a espessura média é de aproximadamente 7μm, enquanto nos dentes permanentes varia de 4 a 5μm, podendo alcançar até 8 ou 9μm em algumas regiões. Uma vez na cavidade oral, a espessura do esmalte aprismático diminui devido ao desgaste funcional.
A utilização de flúor de várias maneiras resulta em um esmalte mais resistente devido à incorporação do flúor na estrutura do cristal de apatita.

A placa bacteriana recobre praticamente todos os dentes erupcionados

Além das estruturas superficiais formadas durante o desenvolvimento, o esmalte é recoberto em praticamente todos os dentes erupcionados pela película adquirida. Esta película é constituída por macromoléculas da saliva que aderem firmemente à superfície do esmalte. A placa bacteriana forma-se na superfície do esmalte devido a complexas interações entre os constituintes da saliva, principalmente bactérias, que aderem firmemente à película adquirida, formando várias camadas. Embora a estrutura da placa varie de acordo com a região do dente, basicamente é constituída por um grande número de bactérias do tipo cocos, bacilos e filamentos. Juntamente com esse conteúdo bacteriano existem filamentos de polissacarídeos, macromoléculas de origem salivar e do sangue, íons e moléculas menores. As bactérias estão organizadas em forma de microcolônias.
Durante a mastigação ou mesmo pela escovação a placa bacteriana pode ser removida, sendo que ela pode rapidamente se reformar. Deposição de mineral na placa origina a estrutura chamada cálculo.
O processo de cárie está intimamente relacionado com a presença de placa bacteriana e resulta na destruição do esmalte através da desmineralização dos prismas.

Junção Amelodentinária

Esmalte e dentina relacionam-se através de uma superfície muito ondulada


A superfície de contato entre o esmalte e a dentina subjacente, denominada junção amelodentinária, é bastante ondulada, característica essa que garante o imbricamento íntimo entre os dois tecidos dentários. Essa ondulação que geralmente tem uma amplitude de 10 a 12μm, provém das leves concavidades da superfície dentinária. Nesta região originam-se os tufos, lamelas e fusos do esmalte.

Fonte:

KATCHBURIAN, Eduardo. Histologia e embriologia oral: texto, atlas, correlações clínicas. 3. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012.

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